16 de fev. de 2011

FORA DO ESQUADRO

Batia uma vontade de telefonar para sua mulher somente para lembrar que a amava.

Curto, lírico, quase como um recado telefônico com o interlocutor ouvindo.

Mas ela aproveitava a chance para descrever as últimas preocupações e atividades da manhã, as brigas do trabalho, as ameaças de demissão, as atrações clandestinas dos colegas. E ele não encontrava um modo de desligar sem soar grosseiro. “Amor, amor, tenho que…” e ela emendava uma nova história e ele empurrava um “já vou” ao chefe com voz escondida de bonequeiro.

Seu azar: a maioria das conversas não tinha pontuação, sequer uma pausa para encerrar o assunto.

Mateus era um minicontista do relacionamento. Preferia várias e rápidas ligações ao dia do que uma longa. Reproduzia o jeito lacônico de seu pai.

Amanda era uma romancista. Preferia várias e longas ligações ao dia. Reproduzia o jeito espichado de sua mãe.

O caso é que a esposa andava ensimesmada com as rugas. Diante do espelho, levantava e abaixava os vincos, brincava de morto-vivo com a testa.

Quando não tomava coragem de revelar algo que a incomodava, acentuava a loquacidade. Falava coisas desnecessárias. Esperava criar um gancho sorteando temas e disparando para todos os lados. Por mais que tentasse inserir a confissão na prosa, não aparecia contexto perfeito, como se a confidência fosse obrigada a ter um início.

Fracassou ao contar ao marido e armou secretamente um botox. Não desejava melhorar para ele, mas contentar o próprio silêncio. Ou alguém acredita que uma mulher faz plástica para seu parceiro?

Marcou a clínica, reservou dois dias na casa de uma amiga para não denunciar o esquema, desapareceu até voltar com a pele lisa, luminosa, resplandecente, de uma jovem de vinte anos.

O detalhe é que ela massageou a zona durante a recuperação, desobedecendo à orientação médica. Esqueceu que tinha feito a aplicação e cumpriu, à toa, aqueles movimentos circulares e habituais nas têmporas para aliviar a dor de cabeça.

Seu olho esquerdo caiu. Caiu de leve, porém perdeu a simetria e a régua com o outro olho. Restou um olho estalado vizinho de um olho estatelado. Como se estivesse piscando ininterruptamente. Ela se via como Gene Wilder, o Willy Wonka de A Fantástica Fábrica de Chocolate.

Entrou, envergonhada, no quarto. O marido percebeu sua timidez. “O que houve?”

Não achou novamente coragem para expor a plástica, ainda mais agora que deu errado. Não havia plano B. Acreditava que ficaria tão linda que ele não iria incomodar com perguntas e indiscrições.

Mateus reparou a expressão diferente. Aproximou-se, cerceou, rodeou e não chegou a nenhuma conclusão. O que tinha certeza é que gostou, encantou-se com a novidade insondável. “O que será? O que será?” Não ousou apontar e correr o risco de desagradá-la — vá que comente que é uma coisa e é outra e entregue que nunca reconheceu um detalhe precioso.

A excitação crescia com o mistério. Intrigava. Passou pela cabeça de que não a conhecia o suficiente apesar das três décadas de casamento. Foi tirando o pijama azul celeste, abrindo o peito, dispensando as meias.

Agarrou seu quadril e o puxou com violência para perto.

Sem localizar, saboreou a luxúria do olhar camoniano, a devassidão da desarmonia.

Amanda nunca reclamou do problema ao médico.

4 comentários:

Carlos Eduardo disse...

vou guardar esse pros melhores! achei parecido com Clarice Lispector - a despersonalização. Do conto "Ele me bebeu" ! da personagem Aurélia NASCIMENTO

Diego Ferraz disse...

A harmonia encontrada na desarmonia. Às vezes é necessário inovar. hehe

Gabi disse...

fantástico!

Juuh! disse...

Naah meus parabéns por tanta inspiração e entrega nesses presentes escritos. Contigo, sinto-me sempre no natal. Minha mamãe-noel! hehe

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