Batia uma vontade de telefonar para sua mulher somente para lembrar que a amava.
Curto, lírico, quase como um recado telefônico com o interlocutor
ouvindo.
Mas ela aproveitava a chance para descrever as últimas
preocupações e atividades da manhã, as brigas do trabalho, as ameaças de
demissão, as atrações clandestinas dos colegas. E ele não encontrava um modo de
desligar sem soar grosseiro. “Amor, amor, tenho que…” e ela emendava uma nova
história e ele empurrava um “já vou” ao chefe com voz escondida de bonequeiro.
Seu azar: a maioria das conversas não tinha pontuação, sequer uma pausa
para encerrar o assunto.
Mateus era um minicontista do relacionamento.
Preferia várias e rápidas ligações ao dia do que uma longa. Reproduzia o jeito
lacônico de seu pai.
Amanda era uma romancista. Preferia várias e longas
ligações ao dia. Reproduzia o jeito espichado de sua mãe.
O caso é que a
esposa andava ensimesmada com as rugas. Diante do espelho, levantava e abaixava
os vincos, brincava de morto-vivo com a testa.
Quando não tomava coragem
de revelar algo que a incomodava, acentuava a loquacidade. Falava coisas
desnecessárias. Esperava criar um gancho sorteando temas e disparando para todos
os lados. Por mais que tentasse inserir a confissão na prosa, não aparecia
contexto perfeito, como se a confidência fosse obrigada a ter um início.
Fracassou ao contar ao marido e armou secretamente um botox. Não
desejava melhorar para ele, mas contentar o próprio silêncio. Ou alguém acredita
que uma mulher faz plástica para seu parceiro?
Marcou a clínica,
reservou dois dias na casa de uma amiga para não denunciar o esquema,
desapareceu até voltar com a pele lisa, luminosa, resplandecente, de uma jovem
de vinte anos.
O detalhe é que ela massageou a zona durante a
recuperação, desobedecendo à orientação médica. Esqueceu que tinha feito a
aplicação e cumpriu, à toa, aqueles movimentos circulares e habituais nas
têmporas para aliviar a dor de cabeça.
Seu olho esquerdo caiu. Caiu de
leve, porém perdeu a simetria e a régua com o outro olho. Restou um olho
estalado vizinho de um olho estatelado. Como se estivesse piscando
ininterruptamente. Ela se via como Gene Wilder, o Willy Wonka de A Fantástica
Fábrica de Chocolate.
Entrou, envergonhada, no quarto. O marido percebeu
sua timidez. “O que houve?”
Não achou novamente coragem para expor a
plástica, ainda mais agora que deu errado. Não havia plano B. Acreditava que
ficaria tão linda que ele não iria incomodar com perguntas e indiscrições.
Mateus reparou a expressão diferente. Aproximou-se, cerceou, rodeou e
não chegou a nenhuma conclusão. O que tinha certeza é que gostou, encantou-se
com a novidade insondável. “O que será? O que será?” Não ousou apontar e correr
o risco de desagradá-la — vá que comente que é uma coisa e é outra e entregue
que nunca reconheceu um detalhe precioso.
A excitação crescia com o
mistério. Intrigava. Passou pela cabeça de que não a conhecia o suficiente
apesar das três décadas de casamento. Foi tirando o pijama azul celeste, abrindo
o peito, dispensando as meias.
Agarrou seu quadril e o puxou com
violência para perto.
Sem localizar, saboreou a luxúria do olhar
camoniano, a devassidão da desarmonia.
Amanda nunca reclamou do problema
ao médico.

4 comentários:
vou guardar esse pros melhores! achei parecido com Clarice Lispector - a despersonalização. Do conto "Ele me bebeu" ! da personagem Aurélia NASCIMENTO
A harmonia encontrada na desarmonia. Às vezes é necessário inovar. hehe
fantástico!
Naah meus parabéns por tanta inspiração e entrega nesses presentes escritos. Contigo, sinto-me sempre no natal. Minha mamãe-noel! hehe
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